segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Eu e o cinema

O cinema é uma panela. E no cinema brasileiro, nunca precisam de uma loira de olhos claros. Quer dizer, precisam sim, mas quando o tipo é esse, geralmente é uma loirona linda, gostosa, mulherão. Nunca precisam de uma loira normal. Com olheiras e um pouquinho acima do peso anoréxico-ideal. Enfim. Muito difícil, sem ser famosa e com o meu biotipo, entrar nessa panela.

Mas tive 3 oportunidades no cinema.

Na primeira, passei num teste prum filme da Lúcia Murat - Quase dois irmãos. Tava super feliz inclusive pela temática, relativa ao período da ditadura militar brasileira e tenho todo um passado acadêmico voltado pro assunto, então seria uma boa oportunidade de eu me sentir juntando minha prática acadêmica ao trabalho de atriz. Mas na véspera da filmagem a Marieta Severo teve um problema e nossas agendas ficaram incompatíveis. Entre ela e eu escolheram ela, claro. Puseram outra no meu lugar. Não filmei.

Na segunda, passei num teste pra fazer uma assistente social em Gramacho. Filme de B.O. (quando ouvirem isso, corram!). Pra quem não sabe, B.O. é Baixo Orçamento. Depois da produtora me explicar por horas as dificuldades de captação do filme, falei:
- Ok, já entendi que é pra fazer na guerrilha, no amor. Mas quanto, afinal, vocês têm pra me pagar?
- R$ 250,00 a diária. mas é só uma diária!
- Oi...? 250??? Putz...só tem isso mesmo? Não tem como melhorar...? Bem... ok, vai, fazer o quê, né...?
Desliguei o telefone me sentindo uma bosta de uma negociadora. E pensei: e na bundinha, não vai nada? Parece  até que a produtora ouviu meu pensamento, porque na sequência ela me ligou de novo:
- Oi querida, esqueci de dizer que como vamos filmar no lixão, no aterro sanitário de Gramaho, é preciso que você tome duas vacinas, contra tétano e difteria. Pode ir em qualquer posto de saúde que eles dão de graça!
Ou seja, além de um diária de 250 eu tinha que pegar fila no posto de saúde, tomar duas injeções e passar o dia no lixo! E eu feliz com o trabalho...

Mas sempre pode piorar.
Além de me pegarem as 10 pras 6 da manhã no dia da filmagem (além do cachê, esse é o horror do mundo do cinema, o horário...), choveu muito, então fiquei na casinha de apoio/camarim na entrada do lixão de 6 da manhã até 16hs, quando nos levaram de carro pro set, na montanha de lixo. Já tava até acostumada com o cheiro azedo e a lama. Chegando no set, o diretor pediu mil desculpas mas disse que ia ter que cortar a nossa cena, porque a chuva e a lama tinham atrasado todo o cronograma.
Voltei pra casa às oito da noite com meu cheque de 250 e sem filmar.

A terceira oportunidade, foi a melhor. Fui CONVIDADA (chiquérrimo!) pra fazer uma ponta de 3 frases no filme de um amigo. Minha cenica entrou pro trailler e o filme já bateu os 3 milhões de espectadores! Tudo bem que eu fazia uma nerd-prega-baranga que fala tudo errado, e que isso foi visto por 3 milões de pessoas, mas foi sucesso total.

Vamos ver quais serão minhas próximas oportunidades no cinema nacional.
Mal posso esperar.
Um novo mercado de trabalho...

Troféu Mula 2011 ou Irritando o TBC

Dia desses, cansada de cruzar com pessoas que me conhecem, que eu conheço, mas que inexplicavelmente em determinadas circunstâncias resolvem não me cumprimentar, postei no FB um comentário sarcástico e irônico sobre o Novo TBC: Teatro Blasé Carioca (e nem fui eu que inventei o termo...).

Aí vai o que postei dia 12 de julho:
"Se vc quiser ser membro do Novo TBC - Teatro Blasé Carioca, vc tem que: ser moderninho, rico, bonito e antenado nas últimas tendências internacionais; saber tudo de view point, entrar em cena com lap top, só ver os trabalhos dos outros colegas do TBC e desprezar o resto, usar tênis coloridos, usar seu próprio nome em cena e acima de tudo ser muito, muito blasé."

Foram 49 comentários de apoio e 57 pessoas que curtiram. Nunca tive tanto sucesso num post.

Mas outro dia soube que tem gente falando mal de mim por aí, por causa desse post. Ou seja, além de blasé esse povo não tem senso de humor!

Moral da estória: o humor é um território cheio de perigos.

E eu estou de parabéns. Ganhei o Troféu Mula 2011: agora além de um tratamento blasé, estou sendo odiada e difamada por essas pessoas. E por outras que por usarem tênis colorido, lap top e fazerem view point vestiram a carapuça sendo que eu jamais os classificaria como TBC!! Simplesmente porque não são blasés! Aliás, a crítica era ao comportamento blasé, o resto era pra ilustrar a piada...!
Só falta ainda perder trabalhos por isso...
Esse  mundo do trabalho dá trabalho...
Mas se alguém precisar de uma mula numa peça, já fiz até laboratório!!!

Seu Roberto

Este é um blogg pra falar das minhas experiências profissionais. Que muitas vezes não são nada profissionais. Ou melhor, é pra refletir sobre minhas experiências com o trabalho. Porque é um mundo muito estranho. Esse mundo do trabalho.

Começo com uma relcamação de mim mesma.
Nesse fim de semana vi RISCADO, maravilhoso filme de amigos. Fala do cotidiano de uma atriz. Fala da relação e da ralação que se tem com o trabalho. Fala de uma mulher que sonha. Fala de todos nós, e tem riso e tem dor. Saí do filme muito tocada e ainda dentro da sala de cinema encontrei com o Amin. Amin é um cara esquisito de cabelo grisalho e barba branca que toda a classe teatral, se parar pra pensar, conhece. Ele vê tudo que está em cartaz.

Pois bem, Amin me chamou pra dizer que o Seu Roberto faleceu semana passada. Seu Roberto era um senhor magrinho e impático que de tanto encontrar nas filas dos teatros, acabei "pegando" amizade. Doce e gentil, Seu Roberto, ainda mais do que o Amin, era um grande ESPECTADOR de teatro. Essa raça em extinção. Me emploguei tanto com as estórias do Seu Roberto, que começou a ver teatro com o Vestido de Noiva do Ziembinski no teatro Municipal em 1943, que resolvi fazer um filme sobre ele. Com recursos próprios, armei todo um esquema e gravei uma longa entrevista com ele no foyeur do Teatro Municipal. Empolgada, quando fui ver o material em casa vi que o som ficou ruim. E nunca mais consegui tempo pra me dedicar a este trabalho, ou seja, pra montar o filme, editar o material, legendar ou melhorar o áudio, enfim. Até porque eu o faria com recursos próprios e a maré tá meio fraca de tempo e dinheiro pra me dedicar a um trabalho assim. Quer dizer, a MAIS um trabalho assim...

Os anos passaram e eu continuei encontrando o Seu Roberto, que sempre me perguntava sobre o nosso filme. Eu dizia que não estava tendo tempo pra tocar o projeto, mas que um dia ele ia sair. Até que ele parou de perguntar. E eu me sentia devendo o filme a ele.

Então no sábado eu soube que ele faleceu na quarta-feira passada. Tinha um câncer no pulmão e nunca conseguiu parar de fumar. Fiquei arrasada. Por não ter feito o filme por ele, pra ele, por mim, pra nós, pro teatro...

Moral da estória: se dedicar aos trabalhos que estão fora da ordem do trabalho é, muitas vezes, o trabalho mais importante.

Os DVDS com a entrevista estão aqui.
Vou ver se agora eu consego seguir com este trabalho.
Pro querido Seu Roberto.